Nem sempre dá certo…

Hoje vou falar um pouco sobre o erro na costura.

Minha história

Aprendi a costurar em 2006, e no começo passei por muitos trabalhos interminados, por cortes que não deram certo, por tecidos cansados de tanto costurar e desmanchar. Isso é muito normal quando estamos aprendendo. Nos últimos anos, consegui terminar quase todos os projetos de costura que comecei, e os que não terminei foi por falta de interesse. Vou da concepção ao acabamento em pouco tempo e com decisões rápidas, mesmo que cada projeto, para mim, seja uma forma de aperfeiçoar minhas habilidades.

Sou muito confiante quando preciso fazer algo novo na minha área – testar um método de modelagem, reproduzir formas de roupas que vi em desfiles, costurar uma peça que nunca fiz antes. Acho que esse é um dos meus pontos fortes. Mesmo assim, ainda estou suscetível a errar, e tenho consciência disso. Erro e corrijo meus erros, pois quase sempre é possível. Desmancho costuras, corrijo protótipos, refaço modelagens.

Na semana passada, aconteceu comigo uma coisa que nunca tinha acontecido antes, pelo menos não desse jeito. Tive que jogar uma peça no lixo. Claro que já fiz muitas peças que nunca foram usadas, que ficaram no baú durante anos, mas essa foi a primeira vez em que o tecido era bonito, o modelo também, e não pude terminar a peça porque já estava péssima, mesmo antes de acabar. Naquele momento, o nervosismo era tanto que desistir da peça me tirou um enorme peso da consciência – o esforço para controlar o tecido era muito grande, e o resultado não valeria a pena. Resolvi aceitar o projeto como uma lição, e tentei descrever o que fiz de errado para ficar mais atenta da próxima vez.

A blusa que tentava fazer era um modelo transpassado com pregas diagonais, que saíam da cintura em direção ao busto, e parte delas era pespontada. Nada muito difícil de fazer. As pregas seriam a parte mais complicada de montar, pois estariam no viés do tecido, mas era só trabalhar com cuidado que não seriam um problema. Minha cliente escolheu o tecido para a blusa antes que eu tivesse desenhado o modelo. Era um cetim bem fino, desses que têm um brilho bem suave. Na hora não dei muita importância, pois já costurei com cetim muitas vezes. Nem me passou pela cabeça que o tecido poderia apresentar algumas restrições.

Ao desenhar o modelo da blusa, preocupei-me com a facilidade de vestir e de movimento, mas ignorei completamente o nível de dificuldade da costura. O cetim que tinha em mãos era tão instável e escorregadio quanto uma musseline, e eu decidi costurar pregas precisas nele, que ficariam no viés, bem na frente da blusa! Isso não é impossível, mas é inviável quando temos restrições de preço. Para fazer funcionar, o tecido da blusa precisaria ser alinhavado a um tecido mais firme, que possibilitaria o manuseio preciso das pregas, e daria corpo ao cetim.

O corte da blusa foi tranquilo, e a prova também. Foi na hora da costura definitiva que percebi que seria muito difícil conseguir um resultado usável. As pregas ficaram torcidas, e quando tentei desmanchar para refazer, o tecido ficava marcado pelos pontos, e puxava fios a cada tentativa. O acabamento que tinha planejado para o decote não previa que este tecido no viés seria tão difícil de manipular. Decidi que estava horrível, e fiquei nervosa. Resolvi continuar mesmo assim, e, quando vi, tinha começado a costura francesa errado e não tinha mais como consertar.

Nem sempre dá certo...

Como aproveitar o erro?

Estas foram as lições que tirei desse projeto:

  • Aprendi a prestar mais atenção à dificuldade da tarefa que me proponho a fazer, para poder decidir se tenho tempo e vontade de enfrentá-la. Se tenho um tecido muito difícil, posso escolher um modelo mais simples. Se tenho um modelo complicado, posso escolher um tecido mais estável.
  • A partir de agora, sempre vou testar o tecido antes de cortá-lo, e isso inclui costurar e também desmanchar! Mesmo que eu já conheça o tipo de tecido, existem muitas variações com características diferentes e que podem se comportar de maneira diferente.
  • Se nunca costurei um detalhe antes, como as pregas no viés, vou costurar um protótipo para testar. Assim, posso saber antecipadamente que tipo de tecido é necessário para costurá-lo.
  • Se eu tiver que costurar rápido, provavelmente não escolherei um tecido instável. Eles pedem muita paciência.

Quando passamos por uma experiência dessas, podemos sentar, relaxar e ficar felizes por termos encontrado uma dificuldade que nos faz crescer e ganhar experiência.

Existe uma grande diferença entre errar quando somos iniciantes, e errar quando somos experientes. Quando somos experientes, os erros são menos frequentes, e por isso podemos dar uma atenção melhor a eles. Também sabemos exatamente o que causou o problema, e como evitá-lo. Quando somos iniciantes, nossa falta de prática provoca muitos erros que podem ser resolvidos apenas com mais prática ou mais calma, e muitas vezes não sabemos o que causou o erro.

Se você está começando, pode pedir a um professor ou amigo mais experiente que sugira a solução para o seu erro. Tente conseguir mais de uma opinião, pois cada pessoa pode observar um aspecto diferente. Escreva o que aprendeu para fixar melhor, e tome cuidado para que suas lições não sejam algo do tipo: nunca costurar cetim, nunca costurar pregas no viés. Normalmente, existe uma maneira de fazer aquilo dar certo, você só precisa de mais experiência ou de mais cuidado. Tente descrever qual é a circunstância específica que faz aquilo dar errado, sem generalizar, para não criar bloqueios no seu aprendizado.

Abrace a possibilidade de errar como uma oportunidade de aprendizado e não tenha medo. Use tecidos mais baratos quando estiver inseguro, e tente sempre usar uma técnica nova.

This article has 5 comments

  1. Muito legal seu blog. Encontrei ele procurando por dicas para aumentar moldes.

    Sou cosplayer, faço roupas de personagens de filmes (não as de peito de fora, rsrsrs, os complicados mesmo), e passo por tudo isso que você citou. As roupas, principalmente de filmes de ação, fantasia, etc, nunca tem molde, a gente tem que sentar, olhar fotos por horas, descobrir como foi feita a peça, partir pro molde, errar, voltar, errar de novo. E, pra piorar, muitas peças são feitas com costureiras de alta costura, coisa que o básico não cobre. Se não bastasse isso, ainda tem que correr atrás do tecido mais próximo possível do original.

    Mas, ufa, quando termino e a galera diz que ficou igual, valeu o esforço.

    Não fiz curso de costura, minha mãe sabe o básico. Meti a cara e lá fui eu me aventurar no mundo da costura. A primeira prova que faço geralmente é em TNT, que vou modelando aos poucos, com alinhavos, até acertar a peça. Depois eu passo pro tecido final e mando ver.

    Pior que isso vicia, cada vez mais a gente quer fazer coisas mais e mais complexas 🙂

    • No fim das contas, é uma coisa muito divertida de fazer, não é? Trabalho com figurino e, apesar de não precisar reproduzir roupas exatamente iguais como em cosplay, me identifico com muitas das coisas que falaste! É um trabalho delicioso desvendar os mistérios de roupas de décadas ou séculos anteriores!

  2. Adorei o seu blog. Bons textos, boas explicações e bons conteúdos! Parabéns!

  3. QUE GRANDE DESCOBERTA! ESTOU ADORANDO COMO VOCÊ APRESENTA OS TEMAS, AS EXPLICAÇÕES E, EXCELENTE MOSTRAR O PASSO A PASSO ATRAVÉS DE FOTOS! VOCÊ É MUITO ESPECIAL! ELIZABETH

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