Que método de modelagem eu escolho?

Para você que é iniciante na modelagem, ou que já pratica há um bom tempo, mas que ainda fica confuso com relação à variedade de métodos de modelagem, hoje vou explicar um pouco do que descobri pesquisando.

Aprendi modelagem na faculdade, e apesar de ir muito bem, não entendia exatamente o porquê das regras que aplicávamos no papel. Usávamos a apostila fornecida pelo próprio curso, e em nenhum momento fomos apresentados a outros métodos de modelagem, logo não entendia muito do assunto. Também não tinha muito interesse.

Alguns anos depois, encontrei o livro Modern Pattern Design, que já recomendei aqui. Resolvi estudar o método de modelagem do livro, e achei muito interessante o fato de que todas as medidas utilizadas no traçado vinham diretamente do corpo. Diferentemente do método que eu já conhecia, que derivava a distância entre os seios a partir da medida do busto, por exemplo, em Modern Pattern Design, medíamos a distância entre os seios diretamente da pessoa, assim como todas as outras medidas. Até mesmo as medidas de busto, cintura e quadril eram tiradas separadamente para frente e para costas (figura abaixo).

Modern Pattern Design

Fonte: Modern Pattern Design, 1946.

Assim comecei a me interessar pelos diferentes métodos de modelagem e a pesquisar sobre o assunto. Aí vai um pouco do que aprendi.

Métodos proporcionais

Antes de desenvolverem métodos, os alfaiates tinham moldes padrão, como bases, que tinham desenvolvido por tentativa e erro. Como o entendimento deles sobre o assunto era pequeno, um bom molde valia tanto, que era passado por herança. Isso antes do século XVIII.

Os primeiros métodos de modelagem eram proporcionais, e feitos através desses moldes que foram aperfeiçoados por tentativa e erro. Os métodos proporcionais ampliam e reduzem os moldes a partir da medida do tórax da pessoa, ou então criam um molde usando apenas medidas derivadas da medida de tórax.

Muitos desses métodos foram publicados na forma de gabaritos, que só exigiam do operador que ajustasse para o seu tamanho e copiasse seu contorno. Como eram muito simples de usar, popularizaram o corte de roupas entre as donas de casa, que antigamente eram excluídas da atividade: somente os alfaiates sabiam cortar roupas, e às mulheres sobrava a costura à mão.

Vários métodos proporcionais podem ser encontrados hoje no Brasil, e alguns deles são: Corte de Ouro, Método Centesimal. Eles são ótimos para quem quer uma maneira fácil de fazer moldes, e que não tem muito tempo ou disposição para aprender métodos mais complicados. Não serve se você quer aprender a modificar os moldes, ou a fazer roupas com caimento perfeito. O Corte de Ouro é vendido aqui no Brasil no site Armarinhos Web.

É mais ou menos assim que funcionam os métodos proporcionais. Fonte: da autora.

É mais ou menos assim que funcionam os métodos proporcionais. Fonte: da autora.

Métodos diretos

Os métodos diretos foram feitos como resposta a alguns defeitos dos métodos proporcionais. Como nos proporcionais todas as medidas são derivadas a partir do busto, produzem roupas que só servem perfeitamente em pessoas proporcionais. E na prática, poucos de nós o somos. Como no fim do século XIX, as roupas femininas estavam ficando cada vez mais ajustadas, houve a necessidade de ter mais precisão no traçado de moldes.

Roupas ajustadas do fim do século XIX. Fonte: Domínio Público.

Roupas ajustadas do fim do século XIX. Fonte: Domínio Público.

Os métodos diretos usam medidas tiradas diretamente do corpo da pessoa, e transferidas para o papel por um conjunto de regras. A desvantagem desses métodos é que são mais complicados, e a pessoa precisa ser bem experiente para tirar todas as medidas com precisão.

Não conheço métodos diretos em português, mas já recomendei o Modern Pattern Design. Esses métodos são ótimos para quem precisa fazer moldes sob medida muito precisos, como para vestidos de festa e alfaiataria. Como são um pouco mais complicados e demorados, não servem para quem procura uma maneira rápida e fácil de fazer moldes.

Métodos mistos

Os métodos mistos usam algumas medidas diretas e outras proporcionais. São os mais usados hoje em dia, principalmente pela indústria do vestuário. Têm um pouco do bom e do ruim de cada um dos tipos. Geralmente, as medidas tiradas do torso são: circunferência do pescoço busto, cintura e quadril, altura da frente (do pescoço à cintura), altura das costas.

Alguns exemplos de métodos mistos em Português: Gil Brandão, Modelagem Industrial Brasileira, Patrones de Moda Paso a Paso. Os métodos mistos são ótimos tanto para quem quer fazer modelagem como profissão, assim como para quem quer fazer roupas para si. É para quem está preocupado com o caimento da roupa, mas quer uma solução mais prática do que os métodos diretos. Recomendo também que iniciantes que tenham se interessado pelos métodos diretos comecem pelos mistos.

Exemplo de traçado de base do livro Patrones de Moda Paso a Paso. Fonte: da autora.

Exemplo de traçado de base do livro Patrones de Moda Paso a Paso. Fonte: da autora.

Fontes

Cutting a Fashionable Fit: Dressmaker’s Drafting Systems in the United States

Modern Pattern Design

The Naked Seamstress

This article has 7 comments

  1. O livro “Modern Pattern Design” é tão antigo que é de domínio público, baixe-o no link abaixo:
    http://sewingforlife.files.wordpress.com/2012/01/modern-pattern-design-1942.pdf

    A melhor forma de modelagem de roupas é aquela que usa softwares 3D, veja o link:
    http://www.clo3d.com/

    e o vídeo:
    http://www.youtube.com/watch?v=wvS2QZdysDo

    Esse software é muito caro, mas é possível usar um modelador 3D genérico como o Blender (que é gratuito), as costureiras russas já estão fazendo isso. O macete é transformar o 3D em 2D (os moldes).

    Tem a versão bem mais barata do Clo3D chamada Marvelous Designer (esse, tem até cursos no Brasil):
    http://www.marvelousdesigner.com/

    Para quem trabalha com roupa sob medida existe o software japonês Dressingsim LSX (Conhecido antes como LookStailor):
    http://www.digitalfashion.jp/new/product/dressingsim_lsx/index.html

    A Bernina tinha lançado um software de modelagem 3D bem prático para as costureiras, o MyLabel, infelizmente, parou de fabricar: 
    http://www.berninamylabel.com/

    • Oi Jeorane! Obrigada pelas dicas! Vou dar uma olhada nisso. Já trabalhei com o Blender, mas achei muito frustrante usar a malha, e não havia jeito de transformar em 2D sem deformar a malha.

    • Oi de novo, Jeorane. Dei uma olhada nos vídeos desses programas, e pelo que percebi, o único deles que pode ser considerado, na minha opinião, um método de modelagem válido, é o japonês, que infelizmente não consegui ver muito bem porque não entendo nada de japonês…
      O Clo3d é um software de provas 3D. Para que possas ter o molde, vais ter que desenhar o molde antecipadamente de qualquer maneira.
      O Marvelous designer é um software para fazer roupas para personagens 3D. Vendo nos vídeos as roupas que eles mostram como fazer, já se vê que os moldes não são realistas, como a camiseta justa com cava completamente reta. Se costurar aquilo na vida real, a pessoa mal consegue se mexer.
      O software da Bernina dá moldes prontos para serem “customizados”.
      Vai ser ótimo quando lançarem um programa que represente o tecido com as características reais de deformação e resistência, mas até lá, ainda precisamos aprender a modelagem no braçal mesmo, hehehehe.
      Por favor, me corrija se me faltou perceber alguma informação.
      Obrigada novamente por compartilhar os software, ainda quero tentar ver mais sobre o japonês.

  2. Olá Renata.

    Realmente, para quem trabalha com roupa sob medida, de todos o melhor é o software japonês, pois ele é para modelagem de alfaiataria e o manequim pode ser customizado com as medidas da pessoa. Não deve ser muito caro.

    Tem uma versão em inglês.

    Você pode pedir informações usando esse formulário:
    http://www.digitalfashion.jp/DFL_en/contact/form/index.html

    Eu já tentei mas eles não me responderam. 

  3. Olá Renata.

    Depois de muita aprendizagem, finalmente fiz em junho de 2015 um blaser e uma saia para uma cliente usando um software 3D genérico e relativamente barato (isso é, não é um software especifico para roupas). O resultado ficou muito melhor do que eu imaginava e a cliente tinha um corpo bem difícil, foi muito interessante ver como os moldes gerados pelo programa são muito diferentes do que os que seriam feitos usando técnicas antigas.

    O que eu consegui fazer com o 3D seria impossível de fazer usando as técnicas comuns que existem a mais de um século e que continuam as mesmas. 

    Todas as técnicas de graduação de moldes ensinadas nas escolas são obsoletas e deveriam ser esquecidas. E as técnicas de modelagem do tipo “põe 1/3 aqui, 1/4 ali” são completamente obsoletas do meu ponto de vista.

    Mesmo sem usar o 3D é possível traçar os moldes usando o Adobe Illustrator ou o CorelDraw, o que eu fazia é simples, simplesmente importo os moldes e depois amplio ou reduzo no X até chegar no tamanho certo.

    Recentemente fiz um blaser e calça para um menino de 2 anos, importei num software 2D (Corel) um blaser de adulto tamanho 52 e reduzi no X e no Y e depois fiz as alterações necessárias, ficou perfeito.

    Estamos no século 21, as técnicas de modelagem precisam evoluir.

    Por enquanto acho que sou o único no Brasil que faz um paletó usando um software 3D.

  4. Oi Renata, boa tarde!

    Meu nome é Carolina, sou da quarta geração da família do Corte Centesimal, e fiquei conhecendo o seu blog recentemente. 
    Em relação a essa postagem, se me permite, gostaria de fazer um esclarecimento e correção.
    Você disse que o “Método Centesimal não serve se você quer aprender a modificar os moldes, ou a fazer roupas com o caimento perfeito.”

    Na verdade Renata, é contrário. Nossos métodos ensinam como obter os moldes básicos e a técnica usada para modificá-los em busca de diferentes efeitos. E a grande característica do Método de Corte Centesimal é a sua exatidão. Quem o adota, traça o próprio molde que fica tão perfeito que até prescinde de provas.

    Intitula-se “Centesimal” porque as principais medidas para o traçado dos moldes foram divididas em 100 partes iguais. Estas divisões estão contidas em pequenas réguas, que chamamos de “Escalas”. Cada Escala tem 50 unidades (representando a quarta parte do corpo). 

    As Escalas Centesimal vão de 30 até 140 cm. E, com um pequeno recurso, podem ser utilizadas as medidas até 280 cm. Com o uso das Escalas Centesimal fica tudo mais simples, pois são eliminados cálculos aritméticos e tabelas. As proporções são mantidas automaticamente. 

    Como outros sistemas de corte, as medidas são tomadas tendo como unidade o centímetro. Entretanto, nas medidas horizontais é que se diferencia de todos os outros sistemas. E é justamente nesse ponto, que se pode comprovar a sua perfeita exatidão. Tais medidas são marcadas com a “Escala” adequada, de modo a conservar proporções com o absoluto rigor.

    Ele é muito indicado pra quem quer trabalhar com roupas sob medida, roupas de festa, roupas mais elaboradas e pra quem tem dificuldade de encontrar roupas que se adaptem ao seu corpo. Para quem tem um biótipo que não se encaixa, digamos, nos padrões atuais.

    O Método de Corte Centesimal foi criado pelos meus bisavós em 1934 e ao longo dos anos vem passando por melhorias e adaptações. Hoje, já estamos na 50ª Edição. 

    E nós temos também outro método de modelagem para tecido plano, chamado Sistema Moldecópia. 

    Ele foi criado pela minha avó Dora, herdeira e continuadora do Corte Centesimal. O Sistema Moldecópia nasceu a partir do Método de Corte Centesimal no final da década de 60. No Sistema Moldecópia as modelagens são realizadas a partir de moldes básicos apresentados nos tamanhos de manequins de nº 22 (recém nascido) ao nº 54 (adulto avantajado). 

    Para muitos, o “Sistema Modecópia” proporciona resultados mais imediatos, por partir de moldes básicos já estruturados, onde você determina o tamanho de manequim desejado, destaca, faz as correções necessárias para modelar o feitio escolhido. 

    Para quem quer mais praticidade, é o mais recomendado pois as ampliações são feitas mais facilmente. Esses são os dois sistemas do Corte Centesimal e ambos levam a um mesmo resultado.

    Bom, espero que tenha ajudado a conhecer e entender mais um pouco sobre os nossos dois métodos para modelagem plana. Se precisar de mais alguma informação, me coloco à sua disposição.

    Cordialmente,

    Carolina Franco
    carolina@cortecentesimal.com.br
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